sexta-feira, 22 de julho de 2011

SONETO Nº 45

Em que ponto perdeu-se o rumo da vida?
Escorregaram pelas sarjetas desses anos,
Ou as grades do tempo prenderam meus planos?
De onde veio tal tristeza incontida?

Quais sentimentos causaram tantos danos?
De onde surgiu esta solidão sofrida?
Por que a alegria foi-me proibida?
Quem há de responder esses meus desenganos?

Não atendo a quem à minha porta bate.
Também deixei de abrir qualquer janela.
Nessa casa não entrará quem me maltrate.

A mim, o que resta, é viver nessa cela
Em que o tempo de pena não há quem date.
Eu, a solidão e esta saudade dela!

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

SONETO Nº 44

Deveras estranho sentir desta maneira...
Um avesso escabroso que me atinge...
Uma nuvem negra que a minh’alma tinge...
Um sentir sem sentido. Sem eira nem beira...

Enigma mui maior que o da esfinge...
Chega trazendo a dor como companheira...
Fado deste ser, ou praga de feiticeira?
Só sei é que, no meu peito, provoca ginge!

Agonia nunca antes vivenciada,
Invade e me domina, feito doença.
Confunde; torna a vida amargurada.

Olhar-te decreta essa minha sentença
De hoje sentir mais saudades, oh amada,
Quando quedo na tua linda presença.

segunda-feira, 1 de março de 2010

SONETO Nº 43

Será tão difícil entender que é você,
Só você, tão somente e unicamente,

Que em mim ocupa corpo, alma e mente;

E que (canto) “eu sem você, não tenho porquê”?


Será nosso sentimento incoerente?

Ou será que um olha e o outro não vê

A beleza disso que até mesmo Deus crê?

Seu querer me foi (ainda é) tão patente...


Fico eu, que tanto e sempre em você cri,

No desvario da cruel e vã verdade

De tal impostura que de você eu ouvi.


A quem enganas, enfim, com tal crueldade?

Àquele que ao amor infinito sorri,

Ou a este que finda com dor de saudade?

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

SONETO Nº 42

O que mais poderia envolver tal alma?
E onde mais tanto amor habitaria?
Sem tal, o espírito, solto, vagaria
Em busca de onde se alojar com calma.

Digo do teu corpo, formas em bicaria!
Onde já dei de repousar olho e palma...
Pelo qual o meu (inevitável!) encalma.
Pelo qual todo anjo odes cantaria.

Teu corpo vai muito além de só beleza.
É um altar para quem carinho cultua;
Fez-me ser firme, mas sem perder a leveza...

E, mesmo padecendo da ausência tua,
Lembrar de cada detalhe, com a certeza
De saber o esplendor que é vê-la nua.

sábado, 7 de novembro de 2009

SONETO Nº 41

Sonhar, mas sonhar com você bem ao meu lado;
Criar um futuro, mesmo de brincadeira;
Projetar a vida, juntos, só de bobeira;
Rir, qual crianças, deste sonho encantado!

Por pedaços de feltro nos pés da cadeira;
Escolher o nome de um filho sonhado;
Rir, quando você me chama de abusado;
E abusar, só para ver-te rir, faceira!

Ter, com o seu tempo, inteira paciência;
E ver toda beleza da mulher-menina
Tomar-me com a força da sua cadência.

Aos poucos te ver vestida de pequenina
Com as vestes do nosso Deus em evidência;
Com detalhes em covinhas e melanina!

terça-feira, 25 de agosto de 2009

SONETO Nº 40

Dúvida entre ser alegre e ser feliz?
E o que lhe impratica de viver os dois?
Alegria é momento, que esvai depois...
Felicidade, com efêmero, não condiz.

Alegre, podes ser agora, antes, depois...
Vês logo o alegre, mas o perdes num triz.
Ser feliz é eterno, mas de branda matiz...
Felicidade, só é visível no que sois.

Ser alegre sempre lhe traz belos sorrisos;
São eles efêmeros, mas são fundamentais...
Alegria: fatos intensos e concisos.

Ser feliz vem da alma; d’outro canto, jamais.
Felicidade vem de um lugar preciso!
Faz-te feliz e feliz serás; cada vez mais!

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

SONETO Nº 39

Um campo em rosas amarelas florido,
Com borboletas em revoada ao redor.
Um belo sonho que a mim faz viver melhor
E torna, o cinza do meu ser, colorido.

De saudade em saudade sinto-me mais sor,
Por findar as saudades que tenho vivido
Nos abraços e beijos com que sou ungido.
Aconchego este que me faz cada vez mor.

A tua ausência te faz estar presente;
Pois, sem o corpo, há a lembrança tão plena
Que em mim ocupa alma, peito e mente.

Na tua presença, perco-me na melena,
Encontro-me no teu lindo corpo ardente
E aprendo que a vida vale a pena!

terça-feira, 14 de julho de 2009

SONETO Nº 38

Naquele dia em que você p’ra mim sorriu
Pela primeira vez de outras tantas depois,
Criou-se lume e magia entre nós dois
Sem que nem mesmo notássemos o que surgiu.

Eu, por mim, logo reconheci tudo que sois.
Vi o meu futuro no sorriso que fluiu,
Que tomou conta, mas tão brevemente sumiu.
Dei-me saudade e esperança, ora, pois!

O tempo, senhor do ansioso e tolo,
Teimava em tiquetaquear os meus dias;
E eu buscava outros risos em consolo.

Mas quem persevera tem certas primazias,
Faz de cada fração do tempo um tijolo,
Construindo um presente de alegrias.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

SONETO Nº 37

E envolto em tal paixão encontro-me eu,
E de tal forma me acho absorvido,
Que de nada mais, eu, doravante, duvido.
Nem de que haja algo além do apogeu.

Em tal estado, nada me faz abatido.
Sou quase supremo morador do eliseu,
Sou quase invencível ao ser amante seu...
Sou o real que do sonho é extraído!

É nos teus braços que me torno elevado,
É nos teus beijos que sonho enternecido,
É no teu corpo que encontro o sagrado.

Saber que me queres, mais que embevecido,
Faz-me desejar ser um ser mais melhorado.
Digno desta ventura que tenho tido.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

SONETO Nº 36

Rasgo-te as vestes com o olhar pedinte
E viajo por tuas curvas sem tocá-las
Com minhas mãos sequiosas de passeá-las,
Hoje, amanhã e pelo dia seguinte.

Miro-as em êxtase, e observá-las
É tão sublime e tem tamanho requinte
Que despi-la assim já não é um acinte,
Mas mostrar, assim, silente, as minhas falas.

Dizer-te do meu desejo e do meu amor
É o que fazem meus olhos ao despi-la
Mas sem, contudo, despojá-la do teu pudor.

E eu, feito de um punhado de argila,
Ganho vida, coração e alma em fervor,
Ardendo em chamas, até virar favila.

domingo, 18 de janeiro de 2009

SONETO Nº 35

Você, que nada é do que autoproclama;
Que vive a ilusão da felicidade;
Você, que sempre julga com iniquidade;
Que perde tudo por si e depois reclama...

Você, que se orgulha da ambiguidade;
Não sabe ser amada e finge que ama.
Você, que faz de tudo um eterno drama;
Que precisa exercitar a vaidade...

Você, que vive n’um mundo que não existe;
Você, que culpa aos outros pelos erros seus;
Que se diz tão forte, mas que sempre desiste...

Você, que teima em simular os erros meus;
Acaba por transformar o sério em chiste...
Diz: Como crer na sua dor, ou no seu adeus?

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

SONETO Nº 34

Bola de gude e carrinho de rolimã...
Caçar de badogue e tomar banho de rio...
Pijama de flanela quando ‘tava frio
E leite fresco, no curral, logo de manhã!

Cavalo de vassoura e cipó de fio...
Batizado para cada boneca pagã
Das minhas primas e, também, da minha irmã!
Pra chamar de volta, bastava um assovio...

Viver de pé no chão... Poder ‘pintar o sete’...
Colar arraia com a goma bem cozida...
Guerra de mamona, ou guerra de confete...

Tempo bom, da minha infância querida,
De corrida de carretel e patinete,
Que guardo, cá, em mim, e levo pela vida...

sábado, 6 de dezembro de 2008

SONETO Nº 33

Pois cá, meus senhores, digo-lhes com lhaneza,
Que, creio eu, seria de grande valia
Pudessem as pessoas morrer por um dia;
Tal, faria a vida melhor, com certeza.

Seria, em vida, ter, da vida, alforria;
Poder não estar vivo e, sem estranheza,
Despertar, rever os conceitos de beleza;
Sorrir de coisas das quais, antes, não sorria.

Ah, como me aprazeria esta chance...
Poder velejar e de novo voltar ao cais...
E poder sonhar... Sonhar... Sonhar à outrance

Morrer, voltar... Por este dia, imortais...
Pensem comigo, ainda que de relance...
Quem sabe até desejem um dia... Ou mais...

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

SONETO Nº 32

Ah!
Quem
Vem
Lá?

Bem,
Dá?
Cá,
Tem!

Vim...
Traz...
Sim!

Faz!
Fim...
Paz...

SONETO Nº 31

Quem sabe a falta de um alienista...
Quem sabe a falta de quem me compreenda...
Quem sabe a falta de uma outra senda...
Quem sabe a falta de droga agonista...

Quem sabe a falta de fazer oferenda...
Quem sabe a falta de ser mais egoísta...
Quem sabe a falta de dar menos na vista...
Quem sabe a falta de aumentar a renda...

Quem sabe a falta de conhecer quem sou eu...
Quem sabe a falta de esquecer mais de mim...
Quem sabe a falta de ser menos sireneu...

Quem sabe a falta de fazer outro motim...
Quem sabe a falta de ser bem menos romeu...
Quem sabe a falta de alcançar o meu fim...

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

SONETO Nº 30

Todo desprezo corre o risco
De gerar uma cruel vingança.
É sempre desleal quem a lança
E não mede atos neste fisco.

Desprezei o medo; sua trança.
E ele pousou tal e qual cisco
No olhar d’um coração arisco
Que à coragem não mais alcança.

E foge de mim por razão banal,
Tornando triste o que foi ledo;
Deixando-me em solidão fatal.

Se for para mudar tal enredo
E ela ter coragem, afinal;
Volto eu a sentir o tal medo!

SONETO Nº 29

Acostumado estou a ser só.
E assim vou vivendo meus dias,
Cultivando minhas manias;
Atando e desatando o nó

De fazer quentes as noites frias
Nas quais a solidão é de dar dó.
Músicas, livros e calma de Jó
Trazem-me noites menos vazias.

Mas existe um momento no qual
Nada preenche o grande vazio
Que no meu peito se deita fatal.

É quando nada aquece o frio
Dessa tua ausência abissal.
É tanta dor que nem choro, nem rio.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

SONETO Nº 28

Não procures nas entrelinhas dos meus mal escritos
Confirmação para idealizações que em mim não hão.
Sou isso: o que aparece, o que se mostra sem ilusão.
Não consigo rabiscar o papel com enganos malditos.

Na minha escrita inexiste o que não cala ao coração;
Há o que expressa, da minha vida, os seus exscritos.
São sentimentos existentes, para tal fim conscritos.
Só recai sobre a folha o que vem d’alma e coração.

Desista então de buscar o que não seja a realidade.
O que verás será a minha fala mais sincera e justa;
Passe as vistas, leia! Atente para a grafada verdade.

Se queres de mim o que tenho de meu, nada custa;
Mais que imaginares ou expressares, será maldade.
Estou, assim, manifestado e dito: p-á-pá-santa-justa.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

SONETO Nº 27

Percorrer toda geografia do teu corpo com a minha mão,
Tão leve, suavemente, quase sem tocar cada penugem;
Tal qual uma viração graciosa por sobre tua pelugem...
Acariciar-te-ei por inteiro, confundindo real e abstração.

Partirei do centro da nuca, sorvendo suor em amarugem;
Descerei as espáduas, percorrerei da coluna a extensão.
Pararei entre as covinhas, a buscar o ventre, em servidão.
Já serei escravo do desejo e estarei repleto de coragem.

Retornarei em contramão até teus seios intumescidos.
Com desejo e paixão contidos, manter-me-ei delicado;
Irei escorrer pelos teus braços, quedados, desfalecidos.

Visitarei planícies, elevações, vales e, em um ato ousado,
Das nádegas avançarei, sereno, aos flancos embevecidos.
Pararei, enfim, à vulva macia, e pousar-me-ei ao teu lado.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

SONETO Nº 26

Que seja cada um o seu próprio ser amado,
Para que possa aprender o amor verdadeiro.
Pois não pode saber amar outrem por inteiro
Quem que só sabe viver com outro ao lado.

Careço de mim mesmo, sempre e primeiro.
Ser feliz tem que ser meu sonho arraigado;
Meu fado; minha sorte; um objetivo cerrado.
Destarte, será, amor, sentimento costumeiro.

Então, amando-me assim, com tal acuidade,
Posso arvorar-me, por fim, em poder amar-te;
Por estar certo de ser amor a minha verdade.

Desta forma, dôo-te, absoluta, minha parte
Mais franca; sabedor da sua imutabilidade.
Amor para sempre, tenho agora para dar-te!

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

SONETO Nº 25

A mim não permito temer nem o real, nem o fantasioso.
Viver fundamenta-se em consentir toda possibilidade;
Despojar-me das ansiedades, das posses e da vaidade.
Nada busco para mim com instinto de um lobo furioso.

Mas quero abarcar o infinito, o muito além, a eternidade;
O mais distante dos sonhos, por mais que seja acintoso.
Quero a mais plena felicidade! Disso sim, sou desejoso!
Entretanto o não alcançar jamais significará calamidade.

Sei que quase nada será como desejo ou como suponho;
Por certo não será isso a fazer-me padecer ou desesperar.
Todavia, de manter-me em devaneios não me envergonho.

Não sofro no quanto se esvai sem ter tido como realizar.
Mais vale ter uma vida sem a chance de viver um sonho,
Que passar toda a vida na pusilanimidade de não sonhar.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

SONETO Nº 24

Não mais haverá noite soturna no breu da solidão silente;
Tampouco estarão tristes as ruas, ao meu caminhar vadio.
E podem me chamar de louco, pois mesmo aflito, agora rio.
Rio numa incontida e total certeza de ser eu um novo ente.

E, querendo partilhar do meu contentamento, a ti propicio
Saber do que a mim traz novo alento e deixa tão contente.
Digo-te, profiro aos ventos, brado, proclamo a toda gente...
É agora minha a beleza infinda, que há muito reverencio!

Doravante permito que a usem. Ao egoísmo não sou dado.
Então a mim agradeça o lobo que uive, ou o inseto que zua!
Sou senhorio de São Jorge; benfeitor do casal enamorado;

Mas lembre-se sempre: não é de outrem; muito menos tua!
Agora sou possuidor orgulhoso, embora nem tão abalizado.
Ofertaram-me como regalo, e aceitei de bom grado, a Lua.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

SONETO Nº 23

De que lhe importa saber dos meus caminhos, quando caminho sem você?
Acaso perguntas ao vento que, sem pudor ou licença, acaricia teus cabelos:
- Por onde passastes, vento? Que fizestes antes de aqui deixar seus zelos?
Ou apenas deixa-o, suavemente, desalinhar-lhe as madeixas, sem mercê?

Caminho por onde me levam os sonhos, as vontades, com ou sem desvelos.
Mas são meus os tais caminhos; e comigo os guardo, sagrados, qual macê.
E por serem tão somente meus, só a mim interessa se são de chita ou glacê.
Reservo-te o direito de caminhar, também assim, sem que me cause flagelos.

Então não perguntes o que a ti não indago. Guarda-te e guarda-me também!
Não busques os meus guardados; e dos seus, para ninguém, faças anúncio.
Tesouros devem ser guardados, e a tua individualidade é teu precioso bem!

Dá-me só aquilo que for meu; como, a ti, sempre doarei o teu, livre e cônscio.
Deste modo, terei de ti o que a mim pertence; o que me faz jus, e nada além!
Sempre estive onde disser que fui; bem como nunca fui d’onde puser silêncio!

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

SONETO Nº 22

Que posso dizer-te, do que em mim tenho guardado,
Diferente do que estás, há muito, cansada de saber?
Como criar palavra nova que encerre o meu querer?
Tudo soa-me pouco; tão parco, que quedo baldado.

Apequenar a alma é cousa que não posso cometer;
Mas qual vocábulo seria tão preciso e bem-fadado
A ponto de traduzir um sentimento assim alindado,
Sem cometer injúria contra o que arrisco adscrever?

Admoesto a ridícula imprecisão do meu conhecimento,
Tão parco, vil, esquálido e sem a necessária serventia
A fim de conseguir auxiliar-me em tal empreendimento.

Do que em mim tenho guardado, dizer-te eu gostaria,
De forma diversa: fazendo jus à tão nobre sentimento.
Mas só sei dizer que amo-te; dia e noite, noite e dia!

terça-feira, 18 de setembro de 2007

SONETO Nº 21

Ah, que saudade intensa, imensa, eu tenho
Dos beijos ardentes que ainda não trocamos;
Das noites em que ainda não nos tocamos.
É nesta saudade que todo amor eu empenho.

E o que importa quanto tempo nós ficamos?
Do tempo, dele, rio e, até mesmo, desdenho.
O tempo diz: Vou! O amor responde: Venho!
E só importa a intensidade com que amamos.

Por saber-te livre, por isso, jamais te perderei.
É essa liberdade perene o que mais nos une.
Não queres minha vida; a tua, jamais eu terei.

Longe ou juntos, a tudo nosso amor é imune.
Sempre de mim terás e eu sei que de ti terei
Esse amor que entre nós, alegremente, zune!

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

SONETO Nº 20

Que queres aqui, Senhora Dona Morte?
Se a mim viestes buscar, leva-me, pois.
Qual outra razão uniria assim a nós dois?
Faz o teu trabalho; consuma-me a sorte.

Mas não, Senhora Dona Morte, depois.
Este teu rondar traz tormenta de tal porte
Que suplicar-te-ei, Senhora Dona Morte:
Não finjas não ser quem sei que sois.

Vestida de anjo ou em negra túnica,
Não há outra mais com tal semblante;
Conheço-te muito bem e sei-te única.

Mas, ficando assim comigo, todo instante,
Tingindo paisagens em cores púnicas;
Torna-me a vida por demais debilitante.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

SONETO Nº 19

Aquilo que me agiganta, também a mim apequena,
Se não me cresce o espírito, mas só a vã vaidade.
Louvores e homenagens absorvidos com acuidade
Não devem leva-nos ao facho desta breve arena.

Mas se isso ocorre, tende o feito à anulabilidade,
Comuta-se, pois, mérito, em putrefata macotena;
Tornando o espetáculo num vazio de entrecena;
Visto perder, então, a glória, toda sua asseidade.

Então serventia não há, jamais, em ansiar à honraria,
De prêmios, troféus e pódios coroados em louros.
Melhor prosseguir caminho humilde e de galhardia.

Se acaso me der a vida bronzes, pratas ou ouros,
Q’eu saiba agigantar a alma e não o ego que assedia
A quem se perde do certo, em busca de tesouros.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

SONETO Nº 18

Da vida, de mim, não espere que lhe fale.
Nada sei da vida que lhe possa ser útil.
Não penses, porém, que eu a levo fútil.
Tenho por ela respeito e sei quanto vale.

Sei que é formada de um todo consútil;
Onde cada ponto que compõe o xale
Leva-nos a correr um determinado cale
Desaguando no hoje deste mar tão sútil.

Dela, a fundo, sabem doutos da ciência
E aqueles que mergulham fundo no ser.
Por esta razão, clamo-lhe complacência.

Perdoa-me pois. Não vás me acometer!
Pois aos sábios não faço concorrência.
Da vida, o que sei, é, tão somente, viver
!

terça-feira, 21 de agosto de 2007

SONETO Nº 17

Os seixos, parados nos leitos dos rios,
Perdem suas arestas bem aos poucos.
Assim também se formam os loucos,
Nas torrentes desses dias tão vazios.

Falam, sem fadiga, a ouvidos moucos
(Mas isso não macula os seus brios).
Aquecem a vida somando olhares frios;
Tornando em música grunhidos roucos.

E, desse jeito, lentamente vão perdendo
As bordas e quinas da dita normalidade,
Criando o mundo novo aonde irão vivendo.

Polindo a alma nos sonhos de verdade,
Fazem, da rocha do que vinham sendo,
Os seixos que cobrem as ruas da cidade.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

SONETO Nº 16

Pairando por sobre a turba medíocre
Vislumbro, ao longe, a cor da saudade.
Ela, entretanto, mimetiza a verdade
Entre tons adocicados e de gosto acre.

Ah, sentimento tão repleto de vaidade!
Porque maltratas quem te guarda em lacre,
Se não há nisso nada ou razão que lucre;
Não há como aumentar-se mais, oh saudade?

Acaba, pois, com tal imensa desfaçatez
E mostra-se inteira como já, em mim, te sinto.
Abarca e aprisiona este peito de uma vez!

Tenhamos honestidade admitindo inextinto
O desejo, a dor, a esperança de um talvez!
Sejamos sinceros, já que, para ela, minto!

SONETO Nº 15

Perdoe-nos esta falta de abraços
E dos beijos que não podemos trocar.
Perdoe-nos pela impossibilidade de amar
Com você nos meus e eu nos teus braços.

Perdoe-nos ainda não termos um lar,
Onde sejam de alegria todos espaços.
Perdoe-nos não estreitarmos os laços
Que já nos unem, cada um noutro lugar.

Perdoe-nos por esta saudade tão imensa.
Por dormirmos um sem outro, perdoe-nos.
Perdoe-nos pela vontade, também intensa.

Por não sermos culpados, então, perdoe-nos.
Perdoe-nos pela distância estar tão densa;
E por ser o Amor nossa Verdade, perdoe-nos
.

SONETO Nº 14

De quão longe tão belo sentimento reata
O que por muito ficou silente, adormecido,
Já não mais importa por ter ele vencido
Espaço, tempo e vidas em revindita exata.

Retorna e surpreende com tantas convergências
Que nos uno e harmoniza em rapidez improvável.
E, por ser amor, sabe, tão somente, ser amável;
Afirmando ser destino e não meras coincidências.

Coloca em meus nos braços a amada desejosa
De ser mulher, de ser feliz e de poder confiar
No homem que a ama de forma pura e preciosa.

E este homem, então, não teme por ela chorar
De alegria incontida, verdadeira, prazerosa;
Sentindo-se enfim ladeado do seu derradeiro par.

SONETO Nº 13

Um olhar nos olhos dela e tudo emergiu!
Veio à tona o que dormia no fundo da memória,
O que só podia ver em sonho de noite meritória.
Foi assim, em olhar único, que a verdade surgiu.

Soube então ser ela a mulher a trazer a glória
Do amor verdadeiro que em mi, enfim, luziu.
E tudo que oculto estava, então se traduziu,
Completando a trama de muito antiga história.

De longe, tornando real um sonho bonito, vem
A mulher nascida para ser por mim querida;
Para ser aquela que, por já ser, será meu bem.

Sei que história assim não é, nunca foi, conhecida
Nem por mim, nem por ti, nem por ninguém.
Pois nasceu antes, muito antes; em outra vida!

SONETO Nº 12

Pergunta-me, então, o que de ti exigirei
Para dar-te por inteiro o meu amor
E de pronto, à vera, sem nenhum pudor
Apenas uma coisa a ti responderei.

Direi o mesmo que pedi à flor
Para que perfumasse por onde andei;
E a ti também sei que assim direi
O que digo ao Sol para que dê luz e cor.

Pedir-te-ei algo tão grande, maravilhoso;
Um pedido tão precioso, sublime, divino,
Que, por certo, me chamarás pretensioso.

Exijo-te, contrato e depois combino
Que sejas o que és - isto é imperioso!
E dar-te-ei o que já é teu: meu coração menino.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

SONETO Nº 11

Quando enfim a morte me sorrir,
Da forma que jamais saberei,
Peço-te que não me prantei,
Por que vou para onde devo ir.

Guarda em ti o que em ti forjei
Com o fogo que sei, há de vir,
Quando sonhar-me ao dormir,
Dizendo-te o quanto a ti amei!

Levarei comigo este sentimento
E ele me bastará lá no distante;
Será minha casa e o alimento.

Assim, quando vier esse instante,
Jamais, em nenhum momento,
Prantei, o seu amor; seu amante!

terça-feira, 12 de junho de 2007

SONETO Nº 10

Estou à beira da loucura!
Seco as lágrimas na eira
Profunda de cada olheira;
Marcas da minha amargura.

Abro os braços em leira
À espera que alguma ternura
Brote em botão ou flor madura
E me afaste da pasmaceira.

Estou a um triz do desatino!
Solto vãs gargalhadas frias;
Talento pífio de um cabotino.

Morro às noites; finjo meus dias.
Se este homem já foi menino,
Perdeu-o junto com as alegrias.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

SONETO Nº 09

Tropel e fogo no firmamento.
Dragões bufando em labaredas,
Ou balões em coloridas sedas?
Artifícios poéticos d’um lamento.

Nuvens formando gris alamedas
Desmancham-se em frio tormento,
Criando açoites de gotas ao vento.
Imagens de dor; outrora tão ledas.

A noite prossegue, medonha e triste;
Fingindo sorrir, me invento contente.
Mas tremo, gelado; os pelos em riste.

Não há negativa da angústia latente
E a fantasia se exaure; desiste.
Não há tropel ou balões. É chuva, somente!

quinta-feira, 29 de março de 2007

SONETO Nº 08

Fita-me e sou presa deste olhar aquilino
Imoto, morto está qualquer defendimento
Assim, entregue, em irrestrito abatimento
Cá estou, perdido, sem qualquer baculino

Tu, sorris, sem sequer algum condoimento
Sabendo-me encarcerado ao teu cristalino.
Ensaio, mas não consigo alçar vôo cabalino;
Pégaso, mesmo sem voar, em insofrimento.

E de que importam subir, adejar, planar...
Em teus olhos, cativo, gozo mais liberdade;
Sinto-me mais alado; são meus, céu e ar.

Vôo muito além do tempo, na eternidade;
A vida além da vida vem a se descortinar
Fixidez transmutada em actuosidade...

SONETO Nº 07

Quem dera pudesse ser eu
Personagem de mim mesmo,
Assim jamais viveria a esmo
Tal qual vulnerável aquileu.

Faria resguardo no peridesmo
E ainda que tachado bas-bleu
Moraria muito além da Cefeu,
Tendo o universo como sesmo.

Não me seria a vida uma ilha
Cingida pelo mar do tormento;
Viveria então eterna maravilha.

Felicidade em abarrotamento!
Findava em sonhos a toadilha
De tantos ais deste lamento.

SONETO Nº 06

Bem cedo abandonei o conforto do ninho,
Pois havia tanto céu chamando por mim.
Como se fosse preciso ir em busca do fim.
Sendo eu o mundo e o mundo, passarinho.

E por ter sem rumo vagado nesse ínterim,
Paguei caro as penas surgidas no caminho.
Pois mesmo havendo par, estava eu sozinho.
Só eu não via não poder ser sempre assim.

Este desafio constante; este eterno cansaço
De quem ignora o perigo e pousa no alçapão.
Urgia mudar tal rumo; que houvesse novo traço.

Então encontrei abrigo no calor da sua mão.
Hoje, eu vôo tranqüilo; já atino ao que faço.
Embora prossiga alado, tenho os pés no chão!

SONETO Nº 05

Sei que só queres causar-me apreensão
Com ar de ofendida, falso choro e beicinho,
Como tivesses levado lapada de buinho
E carecesse de dengo, ajuda ou defensão;

Ficas sempre e sempre assinzinho
Toda vez que entre nós há dissensão.
Para prever essa infalível propensão
Não me é necessário gênio de adivinho.

Depois, então, vem a fúria de amazona,
O ferrão impiedoso de um cazuzinha.
Transmuta-te e personificas a Bellona.

Mas sei que no fundo dessa bela alminha,
Às vezes tão briguenta, noutras, adulona,
Guarda-me em aconchegante camarinha.

SONETO Nº 04

Como água e fogo, nossa diferença é abissal.
Tua eterna flama transfigura-me em acrimante
E o que descortino não é, por nada, animante;
Caberá-nos, algum dia, um momento avençal?

Atascado, perco-me neste imensurável borraçal,
Com o pretensioso raciocínio lógico do aritimante,
Acabo por tornar-me, tão somente, blasfemante.
Arre! Que declínio de absurdez plena, colossal!

Nosso afastamento é, pois, vogar mais condicente.
Realizado com a destreza de mestre em halurgia,
Interromperá esta nossa balbúrdia depascente.

A vida será assim, afinal, uma eternal meliturgia;
E esta dor, pouco a pouco, seguirá evanescente;
Mas qual anjo nos proverá de tão urgente teurgia?

SONETO Nº 03

Teu sonho de felicidade, esperança incessante,
A ti sempre domina, com veemência absolutista;
Colocando-te em postura errônea, acanonista,
Como se todo o resto fosse, então, coisa passante.

Desta visão deturpada, não posso ser acionista,
Por mais que, às vezes, me pareça interessante.
Dominado não posso ser, de loucura tão possante.
Busque, então, outro incauto para ter como adesista.

És escravo e não sentes, por ser isto costumeiro,
Desta ilusão, vão devaneio, que lhe toma abarcante.
Ela se esvairá aos seus olhos, subindo como fumeiro.

Quando o real mostrar-se a ti, o sentirás degradante;
Ficarás sem pouso certo, assim como pássaro rameiro.
Busque então abrigo certo neste amigo discordante.

SONETO Nº 02

Em tempestade furiosa ou plena calmaria,
Navego mares sem alterar meu semblante;
Sou da linhagem de Netuno, sou atlante,
Orgulho tenho em honrar a nossa armaria.

Guio-me a observar cada estrela cintilante,
Sigo as vagas escumantes em eterna romaria;
Mas, por vezes, em clara e manifesta ciumaria,
O firmamento não se me apresenta estelante.

Então faço uso do instinto de Tritão herdado,
Sem temor, determinado, sigo rumo ao infinito;
Certo de que, para uns, passarei por adoudado.

Meu porto seguro se encontra, há muito, definito.
É aqui e é alhures; a qualquer instante trasladado.
É onde nunca alcançarás no seu sonho pequenito.

SONETO Nº 01

Todo aquele ser que, ao seu falar, apenas mente,
Que mente pelo nada e que mente pelo tudo,
Tem como seu normal esquecer sempre o conteúdo
Do que vive a chocalhar a toda e qualquer gente.

Melhor então seria se permanecesse mudo!
Ele, como possuísse a laringe sempre doente!
Deste modo nos pouparia, o tal indigente,
Do seu linguajar sempre tão falso e potocudo.

Mas o pedante realmente crê no que propala
Sempre tão veemente, sempre muito vigoroso,
Na sua com versa empolada, pífia e rala.

Quem, finalmente, desmascara o duvidoso,
Não resiste à tentação e solta a fala:
Cala essa boca, seu pedante mentiroso!